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"O Rio Grande do Sul no imaginário social" é o tema da Semana Farroupilha 2013

SEMANAFARROUPILHA

"O Rio Grande do Sul no imaginário social" é o tema que vai nortear as ações e os desfiles da Semana Farroupilha 2013, que acontece nos dias 14 a 20 de setembro em todos os municípios do Estado. A ideia é trabalhar a mitologia regional e analisar a procedência do gaúcho sob outra ótica. Através dos mitos, lendas e contos é possível conhecer as origens que ajudaram a construir a identidade do nosso povo.

Para o presidente da Fundação Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (FIGTF), Rodi Pedro Borghetti, a escolha sobre o imaginário social foi acertada. "O tema vai captar as lendas, contos e causos que, se não forem incentivados, correm o risco de serem esquecidos. Temos obras de autores como Simões Lopes Neto, Barbosa Lessa. Érico Veríssimo, Luiz Antonio Assis Brasil, Luiz Fernando Veríssimo e outros que facilitam o estudo desse assunto", opina.

"Estudar o imaginário social do Rio Grande do Sul é poder viajar em suas lendas, seus mitos, contos, causos, na literatura (que deixamos em aberto para um próximo capítulo dos festejos farroupilhas), nos usos e costumes do povo gaúcho. A própria existência do gentílico sul-rio-grandense denominado de gaúcho, formado por diversas culturas foi sintetizado pelos valores recolhidos ao longo dos séculos. Antonio Augusto Fagundes, folclorista e antropólogo, define o gaúcho como um ser cultural, e não étnico, formado pelas contribuições das diversas culturas que ocuparam o território do sul do Brasil.

João Simões Lopes Neto criou o seu personagem, Blau Nunes, com características que ele imaginava de um gaúcho autentico, que seria o multiplicador das histórias através de seus contos. Não podemos imaginar esse gaúcho, de nome Blau, senão sentado ao pé do fogo de chão, revolvendo brasas apagadas que teimam em aquentar as cinzas dentro do galpão. Os contos gauchescos, publicados em 1912, trazem sangue, paixão, contados em poucas palavras, ao modo do velho Blau, mostrando uma vida bárbara dos gaúchos, por vezes com certa violência, mas respeitando sempre a lógica das paixões desencadeadas, ou mesmo valores intrínsecos, como no conto trezentas onças, de respeito, honestidade e confiança. Mesmo que, ao lermos os contos gauchescos, na voz que entra em nossas mentes, de Blau Nunes, quem está realmente ali é Simões Lopes Neto, a alma, a fonte de inspiração e de interpretação. Simões Lopes contribuiu com uma bela documentação do populário gaúcho." - O RS no Imaginário Social, Rogério Bastos

O tema “O Rio Grande do Sul no imaginário social”, é definido pela busca da compreensão e organização do ser humano, de maneira que cada indivíduo encontre seu lugar e sua razão de ser no tempo e no espaço. O imaginário resulta de um vasto conjunto de imagens, símbolos e ritos, enfim, do conjunto de experiências coletivas ou individuais de uma sociedade. Trazendo este assunto a tona, no ano de 2013, nos proporciona a possibilidade de levarmos para as escolas, CTGs, e desfiles, de todo o nosso estado, um tema de grande reflexão da importância do estudo do imaginário.

Um ponto importante está na relação do mito com o imaginário social. As narrativas míticas seriam utilizadas pelos atores políticos como uma forma de promover a coesão social. Ao analisarmos a vinculação entre religiosidade humana e o imaginário social, são perceptíveis as diversas práticas utilizadas ao longo da história humana, que visaram legitimar as hierarquizações sociais através da aplicação do sagrado.

Os ritos cívicos, dentro dessa perspectiva, emergem como um mecanismo essencial para reforçar no imaginário social o poder da ordem vigente e as diferenças existentes na sociedade. O imaginário social passou a ser utilizado pelos positivistas para explicar o progresso da civilização e pelos marxistas nas interpretações dos imaginários sociais a partir das análises das ideologias.

A ideia é trabalhar a mitologia regional gaúcha nas escolas e nos CTGs promovendo o teatro, produções de curtas metragens, que estimularão os jovens a produzirem muito mais sobre a nossa identidade, como as coreografias dos grupos de danças e os desfiles da semana farroupilha.
É a oportunidade de analisarmos a origem do gaúcho por outra ótica, que não as já apresentadas nos outros anos. Pelos mitos, lendas e contos podemos ver a origem e ainda “viajar” pelas batalhas e guerras que construíram esse ser, que hoje, definimos por gaúcho.

Para os Desfiles

“Contos, mitos e lendas do Rio Grande do Sul”

CARRO 1 – O imaginário – João Simões Lopes Neto

Utilizar João Simões Lopes Neto, escritor e empresário, como representante literário do imaginário social do nosso estado. Neto nasceu em Pelotas em 1865 e seus contos e lendas vieram a fazer sucesso depois de sua morte. Depois de vários experimentos empresariais (cigarros marca Diabo, fabrica de vidros, moagem de café, destilaria, etc...) encontrou-se profissionalmente como escritor. Recolheu lendas, contos, criou personagens lendários como Blau Nunes, o veterano vaqueano (baqueano – aquele que aponta o caminho, guia) com estampa gaúcha, que é o guia dos caminhos pela pampa e pelos contos de Simões Lopes.

CARRO 2 – LENDAS

A lenda do M Boitatá – a cobra de fogo

Conta-se, entre a gauchada das estâncias, que nos passeios e viagens à noite aparece um fogo valente e às vezes em forma de cobra que, voa na frente dos cavaleiros, impedindo que siga. Há crença entre a gente do campo de que, o Boitatá, se deixa atrair pelo ferro. O meio para livrar-se do ataque consiste em desatar o laço e arrastá-lo pela presilha. O Boitatá atraído pelo ferro da argola do laço deixa o andante e segue atrás até amanhecer o dia. Na versão de Simões Lopes Neto, a cobra de fogo identifica-se com a cobra-grande que se alimenta dos olhos dos bichos.

CARRO 3 – LENDAS

A lenda do Negrinho do Pastoreio

A lenda nasceu das lembranças dos campeiros, marcado pelo terror e crueldade, misturada com o desejo de compensação e de desforço que devia vazar-se em forma religiosa. Para seu transplante lendário concorreram vários fatores, desde baixas formas de crendices, ainda visível nos dias de hoje, até a profunda vibração de solidariedade humana que transformou símbolo de uma raça.

Simões Lopes a estilizou, introduzindo no cenário, Nossa Senhora, a ser madrinha do negrinho, madrinha dos que não tem, deu-lhe uma graça perfeita, mais luz. A lenda do Negrinho do Pastoreio é genuinamente rio-grandense, nascido da escravidão e refletindo o meio pastoril, o poder, e a religiosidade que é associada aos outros tantos casos de escravos considerados mártires.

CARRO 4 – LENDAS

A Salamanca do Jarau

O palco da lenda é o Cerro do Jarau, formado por uma cadeia de morros, que se destacam na paisagem do pampa gaúcho, no município de Quaraí. Simões Lopes Neto desenvolveu o tema com elementos que decorriam das superstições locais. Temos o sacristão dado às artes mágicas, envolvido pela tentação. Aliados a este tema, a ocupação moura na Península Ibérica, a princesa encantada, os tesouros escondidos apresentados na forma de serpente, lagartixa, o carbúnculo ou teiniaguá dos guaranis, elemento originário do novo mundo.

CARRO 5 – CONTOS

O Mate do João Cardoso

Os contos de João Simões Lopes Neto, sua linguagem, representam a sensibilidade e um regionalismo espontâneo como exímio contador de histórias. O Mate do “João Cardoso”, um dos mais populares contos de Simões, destaca a tradição herdada dos indígenas, a hospitalidade do mate na roda do chimarrão, bebida típica do gaúcho, o convívio, solidariedade e a fraternidade do homem rural. Vai além, mostra um período da história que os meios de comunicação eram escassos e as novidades vinham pelos viajantes que passavam pelas terras, já tão pobre, mas sem perder a hospitalidade tão típica do gaúcho. O convite era pra um mate, mas que nunca chegava.

CARRO 6 – CONTOS - Trezentas onças

Trezentas onças

Era verão, Blau Nunes viajava para comprar uma tropa de gado a mando do patrão da estância. Muito quente, ele resolveu se banhar num arroio. Depois de banhado, descansado, seguiu viagem.Quando chegou na estância, onde passaria a noite, percebeu que havia esquecido a guaiaca próximo ao arroio. Deu meia volta e voltou para buscar a guaiaca. No caminho cruzou por uma comitiva que ia em direção à estância, mas não parou, estava com pressa. Ao chegar no local ela não estava lá. O vivente pensou até em dar fim à vida, mas resolveu assumir para o patrão que perdera o dinheiro. Voltou para a estância. Ao entrar, viu sobre a mesa a sua guaiaca com as 300 onças; havia sido encontrada pela comitiva com quem cruzara pelo caminho, como se tratava de gente “boa”, a guaiaca foi devolvida ao dono. Lembra-nos de honestidade, “fio de bigode”, confiança, elementos presentes nos valores do gaúcho.

CARRO 7 – MITOS - LOBISOMEM E BRUXA

O mito lobisomem é a crença que determinados homens podem se transformar em monstro, meio-lobo, meio-homem. O mito no RS leva o fado do sétimo filho homem de uma família que será fatalmente lobisomem, a menos que seja batizado pelo irmão mais velho. O mito da bruxa no RS veio da Europa, mas nada tem haver com a bruxa de nariz comprido, com chapéu montada na vassoura. É uma mulher bonita e má, sua grande arma é o “olho grande”. Será bruxa a sétima filha do casal, quando não for interrompida por varão e batizada pela primogênita, perde o fado. Crianças embruxadas ficam amareladas, cruzam os braços e pernas. Quando aparece borboleta feia e preta nas casas, de dia, acredita-se que é a bruxa e se previne com uma figa, arruda e chifre.

CARRO 8 – CRENDICES E SUPERSTIÇÕES

Em todas as épocas o homem sempre acreditou no sobrenatural, sempre atribuiu a forças ocultas os fatos que fugiam ao seu conhecimento científico, teve medo e procurou conhecer e dominar as forças.
As sobrevivências que fazem parte do nosso acervo cultural, herdado de nossos antepassados, está o mundo mágico, povoado de crenças, misticismo, rezas fortes, simpatias, promessas e como não poderia deixar de ser, da vontade de manipular estas forças invisíveis. As origens das crendices e superstições são tão antigas quanto o próprio homem. Crendice é aquilo que se acredita e não teme, é sentimento de fé, convicção, simpatias, benzeduras.

A superstição é um sentimento baseado no temor e na ignorância. Estão incluídos os ditos “não presta” (não presta fazer isso... por que...). As superstições variam de pessoa para pessoa e lugar, por exemplo: Uma das superstições mais conhecidas e difundidas que se conhece, está relacionado ao número 13, Passar sob uma escada, jogar um punhado de terra na cova do morto, gato preto dá azar, coruja piando próxima casa ou a sobrevoando dá azar.

CARRO 9 – CONTOS - Chasque do Imperador

Blau Nunes narra os fatos de um ponto de vista muito próximo do soberano Dom Pedro II, daquele que se tornou seu ajudante, seu estafeta (Chasque). A narrativa predomina no espaço da pampa gaúcha, em que a tropa comandada pelo Imperador se desloca, ora acampando, ora sendo recebida por estancieiros da região. Ao ser oferecido, Blau não se julga apto a servir o imperador.

Nesse universos vemos as classes distintas: a vida árdua, dotada de poucas informações e de pouco preparo social, que emerge na campanha sulina, e o homem da corte, pouco afeito à vida campeira. Em determinado momento da narrativa, o comandante de uma das tropas (Barão), junto ao imperador, termina fazendo a apologia das qualidades gaúchas, sob o ponto de vista do narrador-personagem, a rusticidade, a coragem e a virilidade do homem pampa gaúcho. Mais tarde o imperador encontra uma mulher, que após perambular pelo acampamento, oferece ao soberano um preparo de requeijão, que dava gosto de se ver e com um cheiro inigualável”. Na passagem, salienta-se, o papel da mulher sul-rio-grandense nos confrontos bélicos que marcaram a Rio Grande. Enquanto os homens seguiam para os campos de batalha, cabia-lhes esperar e tocar a economia local.

A dualidade, que se forma neste universo da guerra, parece, também, adquirir relevância, posto que a incumbência da luta caberá aos peões, homens rudes, afeito às lides bélicas, enquanto o Imperador se manterá protegido, distante do confronto, servindo apenas como um reforço ao moral das tropas em combate. Faz-se importante retomar os costumes, os hábitos gaúchos que a narrativa traz à cena: os cuidados com os cavalos, o chimarrão, aspectos que, de certa forma, fazem eco ao propósito narrativo de valorizar a vida campeira.

 

SEMANAFOLDER



FONTE: ROGÉRIO BASTOS E RITA ESCOBAR/REDAÇÃO SECOM (51)3210-4305