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O ódio como combustível para transformação, por Jefferson de Ramos

 

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2014 começou com a ampla divulgação de uma expressão estrangeira no Brasil. O “Black Bloc”. Do inglês Black: negro; e Bloc: agrupamento de pessoas para uma ação conjunta ou propósito comum. Com origem na Alemanha na década de 80, esses grupos surgiram como uma tática utilizada por anarquistas para defenderem ocupações, e universidades contra a polícia e ataques de grupos rivais.

Esta semana o fato que reacende a discussão sobre a legitimidade e existência dos grupos no Brasil aconteceu no último dia 6 de fevereiro; quando um cinegrafista da TV Bandeirantes teve afundamento do crânio e perdeu a orelha esquerda ao ser atingido por um rojão de vara atirado por um “Black Bloc” em manifestação no Rio de Janeiro. O cinegrafista teve sua morte cerebral anunciada na segunda-feira, 10 de fevereiro.

O Brasil agora passa a conhecer uma organização paralela aos poderes do Estado e sociedade, que usa a força física para expressar-se e um evidente terror psicológico impresso no olhar de cada rosto coberto por camisetas pretas. Mas afinal o que são os Black Bloc’s? Não são nem grupos, nem movimentos.

É uma tática de guerrilha urbana anticapitalista. Que por aqui pega carona nos protestos que iniciaram em junho de 2013, contra o aumento de passagem, aumento de impostos e a realização da Copa do Mundo no Brasil. Momentaneamente parece não ter força política ou de mudança social através de seus atos. Mas o que pode preocupar é a propagação do caos e a divulgação e formação de uma “Geração Anarquista”.

Em entrevista à revista ÉPOCA, um líder Black Block recebe um jornalista em uma chácara no interior de São Paulo, que serve como base de treinamento para um grupo de aproximadamente 30 pessoas. Fato que mostra que seus integrantes não são jovens se encontrando nas ruas por uma causa, e sim grupos treinados para sair às ruas e instaurar o caos.

Mudanças históricas aconteceram em meio ao caos. Mas isso era em uma época em que o diálogo era considerado fraqueza. Hoje diálogo é sinônimo de superioridade moral e intelectual. Nobres são aqueles capazes de sentar a uma mesa, ouvir mais; falar menos e buscar o entendimento coletivo. Diante desta grande onda de protestos, podemos nos perguntar: Qual a diferença dos protestantes de hoje, e os nossos já conhecidos “caras pintadas” do passado? A diferença é gritante: o combustível usado para deflagrar o movimento. Ou seja, os caras pintadas foram movidos pelos ideais de liberdade e patriotismo e tiveram suas metas alcançadas através da organização civil, diálogo e desejo de uma política limpa e transparente. Hoje existe o sentimento de mudança em parte dos protestantes, e esse é legítimo.

Mas a prática de guerrilha urbana instaurando um regime de medo é preocupante e inadmissível. É preciso um renascimento da vida política brasileira. O diálogo hoje é quase inexistente. Falta mediação as inquietações nas ruas e a limpeza nas bases de protestos é necessária. Vivemos o momento mais delicado dos últimos tempos. E a maior exposição de nossos problemas virá nos próximos meses com a Copa do Mundo, e consequentemente o aumento das manifestações.

Como podemos ser ouvidos, se na rua estamos representados por um movimento sem rosto e consequentemente sem boca e ouvidos para o diálogo. Os grupos com roupas e máscaras pretas visam garantir o anonimato dos indivíduos participantes e podem passar de defensores para opositores do povo.

Nossas caras já estiveram pintadas; mas nunca estiveram escondidas. A pintura apenas realçava o sentimento e os traços da verdade no rosto de cada brasileiro que saiu às ruas no passado. Cara limpa, elevação de sentimentos puros como a paz e respeito são os verdadeiros combustíveis da mudança.

O ódio não constrói; ódio é a ferramenta que destrói. Para aqueles que querem a mudança, mas também a garantia da paz; a propagação da boa política e de moldes corretos de reinvindicação é tão importante quanto serem ouvidos por nossos governantes.

Precisamos de um país com punições mais claras para a corrupção, precisamos ser ouvidos. Precisamos crescer moralmente juntos. Tudo o que está acontecendo é o retrato de um país sem padrões éticos e morais na política e consequentemente na vida da sociedade. Devemos escolher os nossos verdadeiros combustíveis para a mudança, e mãos à obra!

 

TEXTO PUBLICADO NA EDIÇÃO DO JORNAL ABCNOTÍCIAS DE 14 DE FEVEREIRO DE 2014