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O depoimento dos chapadenses envolvidos na tragédia

Boate Kiss em Santa Maria

O incêndio que atingiu a Boate Kiss, na madrugada do domingo, 27 de janeiro, resultou na morte de mais de 230 pessoas em Santa Maria, na região central do Rio Grande do Sul. O incêndio começou entre 2h e 3h de domingo, durante a apresentação da banda Gurizada Fandangueira, que utilizou sinalizadores para um show pirotécnico.

Segundo relatos de testemunhas, faíscas de um equipamento “sinalizador”, atingiram a espuma do isolamento acústico, no teto da boate, dando início ao fogo, que se espalhou pelo estabelecimento em poucos minutos.

O incêndio provocou pânico e muitas pessoas não conseguiram sair da boate. A festa “Agromerados” era organizada por estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), dos cursos de Pedagogia, Agronomia, Medicina Veterinária, Zootecnia e dois cursos técnicos.

Das vítimas identificadas, 113 eram estudantes da UFSM, segundo informou a instituição em sua página na internet. O comandante do Corpo de Bombeiros da região central do Rio Grande do Sul, tenente-coronel Moisés da Silva Fuch, disse que o alvará de funcionamento da boate estava vencido desde agosto do ano passado.

Na manhã de segunda- feira, 28, a polícia deteve um dos donos da boate Kiss e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, segundo informações do delegado Sandro Meinerz. Elissandro Sphor, conhecido como Kiko, foi preso na manhã de segunda-feira (28) em um hospital de Cruz Alta. O vocalista e um responsável pela segurança do palco da banda foram detidos em Mata.

Eles tiveram o pedido de prisão temporária de cinco dias decretado pelo juiz Regis Adil Bertolin durante a madrugada da segunda-feira. O outro proprietário da casa noturna entregou-se para a polícia durante a semana.

 

 

Fatalidade atinge Chapada

 

A fatalidade atingiu também o município de Chapada. Estavam na boate em Santa Maria, os chapadenses Tarciso Richter, Lucas Haubert e Willian Brizola Lisboa, e os amigos Fernando Pellin e Miguel Weber May que vieram a óbito. Na manhã de segunda- feira, 28, a comoção tomou conta dos munícipes durante o velório dos jovens no Pavilhão Católico. Familiares e amigos despediram-se com muita dor e saudade, guardando na lembrança os momentos bons e a alegria que eles sempre estamparam no rosto.

Fernando Pellin, 23 anos, nasceu no dia 3 de maio de 1989, filho de Francisco (Chico) e Iara Pellin. Residia no município de Sarandi onde trabalhava na Caixa Econômica Federal. Estava matriculado no curso de Administração pela UPF - Campus Sarandi.

Fernando era torcedor fanático do Grêmio e adorava assistir aos jogos. Fredy, como era conhecido, também deixa enlutados dois irmãos, Francisco Pellin Júnior e Franciele Pellin. Em Sarandi, estava há um ano e retornava das primeiras férias após passar no concurso da CAIXA e ser chamado, onde completaria dois anos de trabalho.

Segundo a irmã Franciele, Fredy tirou férias nesta época para aproveitar a Chapadafest com seus amigos e familiares. Ele tinha várias paixões, dentre elas a Banda Maria Surda, a música, a família e os amigos. A irmã falou também que Fernando aproveitou a sua vida sempre da melhor forma e deu valor a tudo que conquistou em todos esses anos. Depois de ter ido a Punta del Este em suas férias, passou em Santa Maria onde morava o amigo Miguel, que também morreu no incêndio.

Miguel Weber May, 23 anos, nasceu em 25 de agosto de 1989, filho de Germano e Ana Weber May, residia e estudava Agronomia na UFSM em Santa Maria. Miguel deixa enlutada ainda uma irmã, Ananda May Barth.

Segundo ela, ele era um guri de muitos sonhos e expectativas, que lutou desde cedo pelo sonho da Agronomia, cursou ensino médio na Escola Técnica Celeste Gobato, em Palmeira das Missões, onde se formou Técnico Agrícola.

Depois realizou cursinho em Carazinho e mais tarde em Santa Maria, foi aprovado nos vestibulares da Universidade Federal da Fronteira Sul em Erechim, e na Universidade Federal de Santa Maria, ambos em Agronomia.

A irmã Ananda falou sobre os sonhos e expectativas de Miguel: “a gente lembra que uma colega avisou o mano da aprovação. Rapidamente foi conferir e imprimir o listão e logo levou no mercado para a mãe ver e dizia “viu, mãe? Olha aqui! “Tá” meu nome! Passei, mãe! Passei! consegui”!!! Então, o sonho iniciava-se a tornar realidade. Começaram os preparativos para mudança à cidade de Santa Maria e, assim, conheceu muitas pessoas e fez muitas amizades. Adorava jogar futebol, fanático pelo Internacional, sempre que retornava a Chapada gostava de rever seus amigos.

Miguel inspirava-se muito nos Engenheiros Agrônomos da família, principalmente o Tio Arno e o primo João Paulo. Sua vontade era fazer cursinho de inglês e tentar intercâmbio nos EUA. Também comentava em fazer dupla cidadania alemã, e visitar a Alemanha.

Tinha planos de fazer estágio extracurricular, mas não havia lugar definido. Falava da festa de formatura, e estava muito preocupado com a saúde do nosso pai. Nosso último encontro com quase toda família Weber e May foi no meu casamento, destaco sua alegria de participar como testemunha e padrinho deste dia tão feliz.

Passamos nosso último natal em Panambi, na casa do Tio Inno. O ano novo foi comemorado na minha casa. Ele estava tão feliz! Brindamos a chegada do ano novo, após, ele foi ao encontro de seus amigos para comemorar. Miguel retornou a Santa Maria, pois tinha aula, devido a greve no ano passado. Retornou a Chapada para a Chapadafest, no primeiro fim de semana da festa, 12 de janeiro de 2013, estava tão feliz com seus amigos dos Tronrakios. Após, na segunda-feira foi de carona a Santa Maria com amigas.

Enfim, um guri tranquilo, de bem com a vida, muito preocupado com seus amigos. Vai deixar saudades e sua ausência deixa dor em nossos corações”, finalizou Ananda.

Os outros jovens que estavam na boate, Tarciso Richter e Lucas Haubert estão bem. Willian continua hospitalizado, na tarde de segunda-feira foi transferido para Porto Alegre para tratamento.

Na tarde de domingo, 27, Tarciso falou sobre o que lembrava do momento da tragédia: “começou um movimento perto do palco, mas achamos que fosse briga, aí a gente ficou esperando. Então, o pessoal falou que era fogo e corremos para a porta, mas tinha muito movimento. Acumulou pessoal e a fumaça chegou rapidamente, muitos começaram a cair com falta de ar, outros desmaiaram, então nos puxaram, aí a gente conseguiu sair engatinhando, eu e meu primo. Tive ferimentos leves, e vou ficar alguns dias em observação no hospital, meu primo está bem, já está em casa”, falou Tarciso Richter direto do hospital de Santa Maria.

Lucas Haubert, em entrevista à Simpatia na terça-feira, 29, contou que ele, Willian e Fernando passaram as férias em Punta del Este, no Uruguai e retornando no sábado, 26, resolveram ir a Santa Maria onde morava o amigo Miguel. “Encontramos o Miguel e fomos jantar, como ele já havia jantado voltou para casa, depois fomos para o apartamento dele e combinamos de ir à festa com o Tarciso, que estava na casa de um primo.

Fomos à festa por volta da meia noite. Na boate dava para caminhar tranquilo, mas não posso afirmar se tinha superlotação. Havia três ambientes e nós não estávamos no que a banda tocava, não enxergávamos o show. De repente, a música parou e começaram os comentários de que havia ocorrido uma briga, mas logo alguém gritou que estava pegando fogo, olhei para a porta e saí correndo em direção à saída.

Era uma porta de aproximadamente três metros e meio de largura e tinha umas 200 e poucas pessoas tentando sair. Quando cheguei na porta a fumaça já me alcançava, cheguei a respirar essa fumaça também, não sei como consegui sair, quando vi já estava lá fora. Quando estava fora, fiquei andando de um lado para o outro procurando o pessoal, a fumaça era muito densa, não tinha como voltar para resgatar ninguém.

Logo que saí, liguei para casa, para avisar os pais de todos e já disse que o que estava acontecendo era grave. Num primeiro momento meu pai achou que não fosse tanto, mas quando ouviu as sirenes das ambulâncias ficou muito preocupado”, disse Lucas.

Pedro Haubert, pai de Lucas, muito emocionado contou: “assim que me refiz do susto, fomos avisar os pais dos outros meninos e nos deslocamos para Santa Maria. Lá era um clima de desespero, ambulâncias por toda parte, pais e mães desesperados procurando por seus filhos, uma verdadeira situação de terror. Chegamos por volta de 8h30min, e fomos à procura do Willian que estava em uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento). Ele estava sedado e seria transferido para o Hospital de Caridade, isso já eram 11h30min aproximadamente.

Então, encontramos o Chico (Francisco Pellin) e logo recebemos a notícia do óbito do Fredy (Fernando Pellin). Do Miguel tínhamos a informação de que estaria internado também no Hospital de Caridade, mas ao reconhecer o Fredy, já haviam visto o corpo do Miguel. Foi muito triste”, falou Pedro.

Lucas finalizou dizendo “é difícil, uma confusão de sentimentos, por um lado estou feliz por estar vivo, por outro triste pelos amigos que perdi. Passei as férias com o Fredy e, o Miguel sempre foi um grande amigo. Está sendo muito difícil, mas sei que preciso seguir adiante, rezando pelo Willian que está internado e também pelo Tarciso que está se recuperando bem”.

Willian Brizola Lisboa, 21 anos, filho de Janete e Celso Lisboa continua internado no Hospital Cristo Redentor da capital Porto Alegre, para onde foi levado na segunda-feira (28/1) para receber melhor atendimento. Ele está respirando com a ajuda de aparelhos, em coma induzido. O estado de saúde é estável. Na quinta-feira, ele realizou uma cirurgia plástica no braço e ombro em virtude das queimaduras. Também realizaram uma limpeza nos pulmões, onde há muita fuligem.

Desde domingo (03), ele está recebendo tratamento com hidroxicobalamina, droga produzida nos Estados Unidos utilizada para combater o gás cianeto, que intoxicou o sangue das vítimas a partir da combustão da espuma tóxica usada no teto da boate Kiss. Um grupo de médicos vindo do Canadá está realizando a aplicação, em pacientes internados, da chamada ventilação extracorpórea.

“É como se fosse uma diálise do pulmão, uma filtragem no pulmão, só que é feita com uma máquina que fica fora do corpo” explicou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. De acordo com o ministério, a técnica ajuda a promover uma recuperação pulmonar mais rápida.

Segundo informações do site do Zero Hora, o terreno da boate Kiss, palco de uma das maiores tragédias do país, será desapropriado pela prefeitura de Santa Maria e, no local, será construído um memorial em homenagem às vítimas. A decisão foi anunciada pela prefeitura na terça-feira (29). A ideia ganhou força nas redes sociais, onde circulou um abaixo-assinado virtual no site Petição Pública. Uma imagem que simula como seria o memorial está espalhada por perfis no Facebook.

Um dos incentivadores da ideia é o santa mariense Lucas Franco Colusso, 26 anos, formado em Desenho Industrial na UFSM e que atualmente faz mestrado em Florianópolis. Apesar do anúncio ser oficial, ainda não há informações relacionadas ao projeto, datas e nem mesmo como será feito ou o que haverá no local. Apenas a certeza de que deverá servir como uma referência para o pesar e a dor que permanecem no coração de todos.

 

FONTE: REDAÇÃO JORNAL DE CHAPADA E RÁDIO SIMPATIA, G1, ZERO HORA E CORREIO DO POVO