logo fm91 logo 1500am whats-radio9

Um adeus ou um até logo?, por Jefferson de Ramos

Jeffe e Eloy

Entre tantos personagens que atuaram no cenário nacional nos últimos tempos, sem dúvida uma figura marcante é a do juiz do STF Joaquim Barbosa.  Um senhor negro, de semblante sério, com história humilde e de sucesso, filho de pai pedreiro e mãe empregada doméstica. Joaquim Barbosa galgou carreira próspera até chegar à tribuna do STF, onde teve atuação severa e muitas vezes contrária aos próprios colegas de Supremo. Com veemência no escândalo do “mensalão”, foi fundamental para a condenação de 24 políticos e empresários. Fato histórico na justiça e na política brasileira.

Internamente, colecionou inimigos em seus discursos calorosos. E nas ruas, passou a ser modelo de combate à corrupção, chegando a alcançar status de herói justiceiro do povo, e em condições presidenciáveis.

O que ninguém contava era com a aposentadoria precoce do “combatente Barbosa”, anunciada há poucos dias e com data prevista para o final deste mês. Sem muitas justificativas a notícia pegou a todos de surpresa.

Já com a aposentadoria anunciada, Joaquim surpreendeu mais uma vez com a renúncia da relatoria do processo do mensalão. Anúncio feito essa semana e que reabriu as discussões sobre o que realmente pode ter sido o motivo de sua saída.

Teria sido uma desistência da luta pela justiça? Ou uma saída estratégica para acalmar os ânimos e até mesmo conseguir, de certa forma, validar o que já foi feito até o momento?

Desta vez, o ministro explicou que a atuação de advogados de réus do mensalão tomaram dimensões pessoais, e até mesmo com ameaças a sua integridade, sendo o melhor para o momento renunciar a relatoria do processo. 

Para quem desconhece os termos jurídicos e as justificativas pertinentes à ética que rege os trabalhos do STF, a renúncia de Joaquim Barbosa pode parecer o “Entregar as pontas” em um processo de julgamento do mensalão, ou quem sabe até um fracasso na reestruturação da justiça. Mas analisando melhor, podemos chegar à outra conclusão.

A breve atuação de Joaquim Barbosa na presidência do STF parece não ter sido em vão, e há fatores visíveis que foram alterados com a ampla divulgação do julgamento do mensalão.

É visível o crescimento do interesse da sociedade pela justiça e a política. Houve um aumento na participação do povo na discussão do cenário político-social do País. Antes boa parcela da sociedade sequer sabia o que era e como atuava o STF. O Brasil passou a acompanhar os magistrados e entender um pouco do processo da justiça e da política brasileira. É louvável a inserção do povo no dia a dia da política nacional, o que pode ser um passo inicial para uma reforma que a muito tempo se faz necessária, e que por uma ordem natural e mais segura, deve começar pela postura do próprio eleitorado diante de suas escolhas.

Que estamos carentes de modelos de honra e decência, isso não é nenhuma novidade. Principalmente na política e na justiça, e é nisso que a herança deixada por Joaquim Barbosa se torna importante. Primeiramente pela certeza que nem tudo está perdido, e ainda, podemos ter assim a esperança que do povo podem sair mais “Barbosas”.

Se um Joaquim aposentou-se, porque não podemos formar mais alguns no mesmo molde? Para tanto, precisamos cultivar o interesse pela justiça e pela política que norteia nosso país. O que muitas vezes achamos chato, burocrático, fora de nosso alcance e até mesmo corrupto é o que guia a nossa vida, nosso presente e nosso futuro. Ter repulsa pela política não muda em nada a situação deplorável a que ela chegou.  Sempre foi e sempre será nossa responsabilidade participar das escolhas e do andamento da política e da atuação dos políticos. Isso é a democracia.

Muito já foi feito, e muito mais pode ser feito para limpar e melhorar a política e a justiça, só não podemos desistir. Com ou sem Barbosa, o nosso interesse tem que continuar. Ah! E para aqueles que gostaram da postura dos trabalhos e da credibilidade de Joaquim Barbosa, há boatos que ainda ouviremos falar dele. Tudo é possível...